Convertido por Maria

 

A acreditar em Francis Jammes, nem Eneias, nem Vasco da Gama, nem Colombo tinham atravessado, para chegar a um novo continente, um Oceano tão vasto como ele, quando transpôs o nada num berço e desembarcou a 2 de Dezembro de 1868, junto dos Pireneus, em Tournay, onde seu pai era recebedor da Coletoria de Tributos.

Era sábio e piedoso. Recordando a sua infância, di­zia: “A felicidade eram as minhas estadias na igreja.”

 Seu pai entra em funções em Bordéus em 1880. Francis é admitido no Liceu. Estudar as expedições de Júlio César, conjugar o verbo trabalhar, extrair raízes quadradas, tudo isso não agradava nada a uma natureza toda voltada para a poesia. O aluno tem más notas. Que admiração! A musa da poesia já aflorava à sua alma toda cheia de mistério e de sonhos. E obrigavam-no à força a estudar história e matemática

Aos vinte anos, entra como escriturário num cartório de advogado. Desde adolescência que não pratica a reli­gião da sua infância. Acredita, no entanto, num Deus bom que reina num paraíso um pouco pagão, no meio de flores e de mulheres.

A poesia invade-o. Publica o poema Versos em Orthez. Nascia assim nele este canto musical sob a única lei de responder a si mesmo, de continuar ele mesmo e de acabar segundo a sua lei interna, a lei desta musa íntima que o guiava e o minava ao mesmo tempo.

Durante dez anos, Jammes não encontrou ainda a fé: ” pagão e católico”, vai misturar sensualidade e reli­giosidade. O seu primeiro grande livro Do Angelus da au­rora ao Angelus da tarde começava com estas palavras que são como que uma profissão de fé religiosa:

“Eu passo pelo caminho como um burro carregado de que os meninos se riem e que baixa a cabeça. Irei para onde quiserdes e quando quiserdes. Soam as Trindades.”

Jammes é humilde, sofredor, pequeno; e é esta humil­dade que o levará mais tarde a Lurdes, Aquela que é a própria Humildade.

Nas suas Memórias, confessa que é por esta via da humildade que Deus quer conduzi-lo até Ele. O Cristo pequenino e sua Mãe muito humilde inclinam-se sobre os rostos marcados pelo fogo terrível das humilhações, ainda sulcados por todas as lágrimas duma vida atormentada.

“As suas “catorze orações” denotam alguém que está no limiar do Credo. Jammes sofreu. Tinha experimentado um sentimento de plenitude amorosa no decurso duma liga­ção romanesca que ele teria querido transformar em casa­mento. Tinha-se chocado com a recusa de sua mãe, que jul­gava esta união incompatível com certas convenções bur­guesas. Os argumentos maternos triunfaram, mas não sem provocar acessos de desespero. E este sofrimento conduziu-o pouco a pouco até Deus.

O caminho da perfeição ladeia um abismo de deses­pero, e Jammes exclama com a fina delicadeza do poeta, no Luto das Primaveras:

Meu Deus, acalmai o meu coração,

acalmai o meu pobre coração,

E fazei que neste dia de Verão em que o torpor

Se estende, como água sobre coisas iguais,

Eu tenha a coragem ainda, como esta cigarra

Cujo canto ressoa no sono dos pinheiros,

De vos louvar, meu Deus, modestamente e bem.

Ele conta o seu sofrimento ao amigo Paul Claudel, que o encoraja no caminho da fé.

 Em A Revista dos Jovens, Jammes narrou as etapas do seu regresso a Deus: uma pobre conversão, sem flores nem mel, em que Deus foi alcançado graças a uma desnudação, a um despojamento de tudo. É o menino som­brio em aflição que, tomado de vertigens, exclama: “E pre­ciso que assim seja, ou não há nada”.

É a Virgem de Lourdes que vai fazer inclinar a balança e dissipar as dúvidas. Acompanha sua mãe a Massabielle, a qual escreve no seu diário: “Pela primeira vez juntos cami­nhávamos para Deus. Havia na minha alma como que uma grande festa inesperada. Pedi a Maria um milagre de felici­dade, a realização do sonho de que ele sofre há três anos, e agora confio e espero”.

Tinham ido até Deus passando por sua Mãe. Mas, o que acontece muitas vezes com as almas sensíveis e deli­cadas, Jammes foi assaltado por escrúpulos:

“Assaltavam-me terríveis escrúpulos, até me fazer du­vidar de que a confissão e a comunhão me fossem possí­veis”. Depois, um dia, reflectiu: “E impossível que Deus impeça um homem que o deseja de se unir a Ele.”

Jammes lembrou-se das palavras de fé que, na sua presença, Paul Claudel, cônsul de França em Fou-Tchéou, linha prodigalizado a Mareei Schwob gravemente doente. Com a sua acuidade intelectual toda impregnada de poe­sia, perguntava-se porque é que também ele, em vez de se empinar no seu orgulho, não viria a procurar refúgio neste Deus que ele tantas vezes tinha cantado nos seus poemas. Dirige uma carta a Paul Claudel em que lhe confessa as suas misérias, fraquezas e inquietações.

 Para vencer esta arrogância, Claudel suscita no ami­go a imagem do profeta Job que, jazendo na sua abjecção, raspa as úlceras com cacos de vidro, enquanto a sua alma glorifica o Senhor que lhe levou tudo.

Paul Claudel desembarca da China, passa alguns dias em Orthez. Aí, os ‘”sopapos” da palavra de Claudel aca­bam de vencer as últimas hesitações. A 7 de Julho de 1905, na Bastide Clairence, Paul Claudel ajuda à missa celebrada pelo Padre Dom Michel Caillana. Jammes comunga atrás deles. Era preciso consolidar esta fé, trazendo-lhe o lado de amor, de alegria, de paz, quase de poesia inacessível. Com esta intenção, decidem ir de novo a Luordes. Paul Claudel e Francis Jammes cumprem juntos uma peregrina­ção à Senhora dos Humildes, a Senhora acessível a todos simplesmente e quase visivelmente.

Durante a procissão do Santíssimo Sacramento acon­tecem 11 milagres.

A sr.a Francis Jammes escreverá no seu Diário: ;iFoi, não posso duvidar, naquele dia que Deus decidiu dos nos­sos destinos, porque eu estava presente nesta cerimónia, perdida na multidão, enquanto aquele que eu devia amar tanto estava nos degraus da Basílica do Rosário, ao lado do seu grande amigo”.

É em Lourdes que Jammes vai encontrar aquela que virá a ser a sua esposa. Claudel tinha prometido ao seu amigo toda a felicidade humana que ele merecia. A 14 de Julho de 1907, recebe uma carta duma das suas admirado­ras desconhecidas.

 Jammes tinha ido venerar o túmulo de Charles Guérin, sm Lunéville. No regresso, encontrou sobre a mesa de tra­balho uma carta duma rapariga, Ginette Goodorp, que lhe participava a sua admiração e o desejo de receber dele algu-mas linhas. Francis vê nesta carta uma resposta de Nossa Senhora de Luordes. Escreve à jovem, trata-a de mejengra, uma mejengra que esvoaça na sua janela… E preciso que ela aceite esta carta como a expressão da vontade de Deus. Das duas uma: ou ela queimará estas páginas, ou ela lhas devol­verá um dia, porque ele pediu a Deus que lhe fizesse conhe­cer uma jovem da mesma forma que ela se dera a conhecer a ele.

E Jammes vê em Lourdes aquela que devia tornar-se sua esposa. Os esponsais realizaram-se a 19 de Agosto de 1907, diante da Gruta, e o casamento celebrou-se a 8 de Outubro seguinte na Picardia na igreja rústica de Bucy-le–Long, onde, entre a assistência, se encontrava André Gide.

Um ano mais tarde, Francis Jammes conheceu a ale­gria da paternidade. Nascia uma menina, a quem deu o nome daquela que teve a felicidade de ver a Virgem: Bernardete. O poema que lhe consagra, Minha filha Bernardete, é uma poética acção de graças. Publica um livro consagrado à Virgem: A Virgem e os Sonetos.

A Virgem levou-o a Cristo e ele saúda-a nos “Mistéri­os Dolorosos”, com o estilo ousado do poeta:

Pelos filhos batidos pelo bêbado que recolhe a casa,

Pelo burro que recebe pontapés

na barriga, Pela humilhação do inocente castigado, Pela virgem vendida que alguém despiu, Pelo filho cuja mãe foi insultada, Eu vos saúdo, Maria.

E eis chegada a hora da morte.

O sofrimento emana como uma prece. Morreu na tar­de de Todos-os-Santos.

Jammes subiu progressivamente da dúvida à crença. Não se pode dizer que seja um convertido no sentido dum regresso completo. Como o caminho que segue para a es­querda ou para a direita, ele conservou sempre a mesma direcção geral.

As suas peregrinações levaram o poeta a apoiar em princípios certos uma crença mal definida, crença que até então brilhava nas brumas da poesia, sem se apoiar na ter­ra sólida.

O nome de Maria volta muitas vezes à sua pena, quan­do ele confraterniza com os humildes e os sofredores, como nos Mistérios dolorosos.

Pela velhinha que, vacilando sob demasiado peso,

grita: “MeuDeus”!

       Pelo infeliz cujos braços não puderam apoiar-se

num amor humano.

      Como a Cruz do Filho levada por Simão de Cirene Pelo cavalo caído debaixo da carroça

que ele arrasta,

Eu vos saúdo Maria. Pelos quatro horizontes que crucificam

o Mundo, Por todos aqueles cuja carne se rasga

ou sucumbe, Por aqueles que não têm pés, pelos que

não têm mãos, Pelo  doente que é operado e que geme E pelo justo posto na categoria dos assassinos,

Eu vos saúdo, Maria.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: